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Fertilidade

Congelamento de óvulos: quando considerar a preservação da fertilidade?

Por Dr. Fernando Boldrin · Ginecologia, Obstetrícia e Reprodução Humana

A possibilidade de congelar óvulos trouxe uma nova perspectiva para mulheres que desejam preservar parte do seu potencial reprodutivo para o futuro. A técnica permite que óvulos maduros sejam coletados e vitrificados enquanto a mulher ainda apresenta uma determinada reserva e qualidade oocitária, para que possam ser utilizados posteriormente, caso seja necessário.

O congelamento de óvulos pode ser realizado por diferentes motivos. Ele pode fazer parte da preservação da fertilidade antes de tratamentos médicos que podem comprometer a função dos ovários, como alguns tratamentos contra o câncer, ou ser considerado por mulheres que desejam adiar a maternidade por motivos pessoais.

Mas é importante entender que congelar óvulos não significa simplesmente "guardar a fertilidade". A decisão envolve idade, reserva ovariana, número de óvulos que podem ser obtidos, planejamento reprodutivo e expectativas realistas sobre o futuro.

Por que a idade é tão importante?

A fertilidade feminina está diretamente relacionada à idade, principalmente por causa da redução progressiva da quantidade e da qualidade dos óvulos.

Ao longo dos anos, aumenta a proporção de óvulos com alterações cromossômicas, o que está relacionado à redução da fertilidade e ao aumento do risco de perdas gestacionais. Por isso, quando o congelamento é realizado para preservar a fertilidade relacionada à idade, o momento em que os óvulos são congelados é uma das informações mais importantes para interpretar o potencial benefício da estratégia.

Isso não significa que exista uma idade única em que toda mulher deveria congelar seus óvulos. A decisão precisa considerar a história reprodutiva, os planos de maternidade e a avaliação individual da reserva ovariana.

Como funciona o congelamento de óvulos?

O processo começa com uma avaliação da saúde reprodutiva da mulher. Podem ser analisados aspectos como idade, histórico menstrual, exames hormonais e ultrassonografia dos ovários.

Depois, é realizada uma estimulação ovariana controlada com medicamentos hormonais para estimular o desenvolvimento de vários folículos durante um mesmo ciclo.

O crescimento dos folículos é acompanhado por exames de ultrassom e, em alguns casos, exames laboratoriais. Quando os folículos atingem o estágio adequado, é realizada a coleta dos óvulos por meio de um procedimento chamado punção ovariana.

Os óvulos maduros obtidos são então vitrificados e armazenados em condições específicas para utilização futura. A vitrificação é uma técnica de congelamento ultrarrápido que reduziu significativamente a formação de cristais de gelo e contribuiu para a melhora dos resultados da criopreservação de óvulos.

Quantos óvulos devem ser congelados?

Essa é uma das perguntas mais frequentes, mas não existe um número único que possa ser considerado adequado para todas as mulheres.

A quantidade de óvulos necessária depende principalmente da idade no momento do congelamento, da resposta ovariana à estimulação e dos objetivos reprodutivos.

A reserva ovariana pode ajudar a estimar como os ovários poderão responder à estimulação e quantos óvulos podem ser obtidos, mas não deve ser interpretada isoladamente como uma previsão da possibilidade futura de nascimento. A própria ASRM destaca que os dados disponíveis não permitem estabelecer um número universal de óvulos que garanta uma determinada chance de nascimento.

Por isso, em algumas mulheres pode ser discutida a realização de mais de um ciclo de estimulação, especialmente quando o número de óvulos obtido inicialmente é baixo ou quando a idade no momento do congelamento torna importante ampliar o número de óvulos armazenados.

Congelar óvulos significa garantir uma gravidez no futuro?

Não.

Essa é uma das informações mais importantes para quem considera o procedimento.

O congelamento preserva os óvulos que estão disponíveis naquele momento, mas não interrompe o processo natural de envelhecimento reprodutivo da mulher. Além disso, nem todos os óvulos congelados necessariamente sobreviverão ao descongelamento, serão fertilizados, formarão embriões e resultarão em uma gravidez ou nascimento.

Por isso, o congelamento deve ser compreendido como uma estratégia de preservação de potencial reprodutivo, e não como uma garantia de maternidade futura. As sociedades médicas recomendam que as mulheres sejam orientadas sobre benefícios, limitações, riscos e incertezas antes de tomar essa decisão.

E quando os óvulos congelados forem utilizados?

Quando a mulher decidir utilizar os óvulos armazenados, eles serão descongelados e fertilizados em laboratório, geralmente por meio da injeção intracitoplasmática de espermatozoide, conhecida como ICSI.

Depois da fertilização, os embriões são cultivados em laboratório e, quando apropriado, um embrião pode ser transferido para o útero.

Ou seja, o congelamento de óvulos não é o mesmo que congelar embriões. A principal diferença é que, ao congelar o óvulo, a decisão sobre qual espermatozoide será utilizado para a fertilização fica para o futuro. Essa é uma das características que tornam a criopreservação de óvulos uma opção importante de preservação da fertilidade.

Quem pode considerar o congelamento de óvulos?

Existem diferentes situações em que a preservação da fertilidade pode ser considerada.

Uma delas é a indicação médica, como nos casos em que a mulher precisará passar por um tratamento que pode comprometer sua função ovariana. Nesses casos, o planejamento deve ser feito, sempre que possível, antes do início do tratamento.

Outra possibilidade é o chamado congelamento planejado de óvulos, realizado por mulheres que desejam preservar uma possibilidade reprodutiva futura diante do adiamento da maternidade.

A decisão, entretanto, não deve ser baseada apenas em um exame de reserva ovariana ou em uma idade determinada. É preciso conversar sobre o momento reprodutivo, os planos pessoais e as expectativas em relação à técnica.

O congelamento de óvulos pode ser feito depois dos 35 anos?

Pode, mas a idade precisa ser considerada na avaliação.

À medida que a idade aumenta, pode haver redução tanto da quantidade de óvulos recuperados quanto, principalmente, da proporção de óvulos cromossomicamente normais.

Isso não significa que o procedimento deixe de ter utilidade depois dos 35 anos. Significa que a mulher precisa receber uma orientação individualizada sobre o que pode ser esperado naquele momento e, em algumas situações, sobre a possibilidade de serem necessários mais ciclos para alcançar uma quantidade de óvulos considerada adequada para seus objetivos.

Por isso, quanto mais cedo a mulher começa a pensar no planejamento reprodutivo, maior é a possibilidade de discutir as alternativas disponíveis antes de uma redução mais acentuada do potencial reprodutivo.

No ABC Paulista, o planejamento da fertilidade pode começar antes da tentativa de engravidar

No ABC Paulista e na Grande São Paulo, mulheres que desejam adiar a maternidade podem procurar avaliação especializada para entender como está sua reserva ovariana e quais estratégias de preservação da fertilidade podem fazer sentido para seu momento de vida.

O Dr. Fernando Boldrin, ginecologista e obstetra com atuação em reprodução humana assistida, acompanha mulheres que desejam planejar a maternidade e avaliar possibilidades como o congelamento de óvulos, considerando não apenas os exames, mas também a idade, os planos reprodutivos e as expectativas individuais.

O objetivo não é indicar o congelamento para todas as mulheres, mas oferecer informação para que cada uma possa tomar uma decisão consciente sobre seu planejamento reprodutivo.

Congelar óvulos é uma decisão de planejamento, não uma garantia

O congelamento de óvulos ampliou as possibilidades de preservação da fertilidade e pode ser uma alternativa importante para algumas mulheres.

Ao mesmo tempo, é fundamental compreender suas limitações. A idade no momento do congelamento, a quantidade de óvulos obtidos e as características individuais influenciam os resultados futuros, e não existe um número de óvulos capaz de garantir uma gravidez.

Por isso, a melhor decisão é aquela tomada com informação adequada e avaliação individualizada. Preservar a fertilidade não significa necessariamente adiar a maternidade, mas pode oferecer uma alternativa adicional para mulheres que ainda não desejam ou não podem engravidar naquele momento.

Referências bibliográficas

  1. AMERICAN SOCIETY FOR REPRODUCTIVE MEDICINE (ASRM). Planned oocyte cryopreservation to preserve future reproductive potential: an Ethics Committee opinion. Fertility and Sterility, 2024;121:604-612.
  2. AMERICAN SOCIETY FOR REPRODUCTIVE MEDICINE (ASRM). Evidence-based outcomes after oocyte cryopreservation for donor oocyte in vitro fertilization and planned oocyte cryopreservation: a guideline. Fertility and Sterility, 2021.
  3. EUROPEAN SOCIETY OF HUMAN REPRODUCTION AND EMBRYOLOGY (ESHRE). Guideline on Female Fertility Preservation. ESHRE.
  4. EUROPEAN SOCIETY OF HUMAN REPRODUCTION AND EMBRYOLOGY (ESHRE). Guideline on Ovarian Stimulation for IVF/ICSI. Atualização 2025.
Dr. Fernando Boldrin · CRM 101444 | RQE 60876 | RQE 60875Conteúdo informativo. Não substitui a consulta médica.