Receber o diagnóstico de endometriose pode trazer uma preocupação que vai além da dor: “Eu ainda vou conseguir engravidar?”
A resposta não é igual para todas as mulheres. A endometriose pode interferir na fertilidade por diferentes mecanismos, incluindo alterações na anatomia pélvica, inflamação e comprometimento da função ovariana. Mas ter endometriose não significa, necessariamente, que será preciso recorrer à fertilização in vitro (FIV).
Por isso, quando existe desejo de engravidar, o mais importante é entender como a doença está se comportando e quais são as condições reprodutivas daquela mulher.
Toda mulher com endometriose precisa de FIV?
Não.
A indicação de um tratamento de reprodução assistida depende de vários fatores. Idade, tempo de infertilidade, reserva ovariana, condição das trompas, presença de alterações no sêmen do parceiro, extensão da endometriose e tratamentos realizados anteriormente precisam ser considerados em conjunto.
Em algumas mulheres, pode ser possível tentar a gravidez espontaneamente. Em outras, a inseminação intrauterina pode ser considerada. Já a FIV pode fazer parte do planejamento quando existem fatores que reduzem a possibilidade de concepção natural ou quando outras estratégias não são adequadas.
Ou seja, o diagnóstico de endometriose, sozinho, não determina o tratamento.
E se houver um endometrioma no ovário?
Essa é uma situação que merece atenção especial.
O endometrioma é um cisto ovariano relacionado à endometriose. Sua presença não significa automaticamente que ele precise ser retirado antes da FIV.
Isso acontece porque a cirurgia ovariana pode reduzir a reserva ovariana. Por isso, a decisão precisa considerar características do cisto, sintomas, idade, reserva ovariana, histórico de tratamentos e o planejamento reprodutivo da paciente. A FEBRASGO, em posicionamento publicado em 2026, recomenda que a cirurgia do endometrioma antes da reprodução assistida não seja realizada rotineiramente, sendo reservada para situações bem definidas.
Em determinadas situações, preservar a função ovariana pode ser tão importante quanto tratar a própria doença.
A endometriose diminui as chances da FIV?
A relação entre endometriose e os resultados da FIV é complexa.
Alguns estudos observam diferenças na resposta ovariana e no número de oócitos obtidos, mas os resultados reprodutivos não são uniformes para todas as pacientes. A ESHRE destaca que a decisão sobre reprodução assistida deve considerar as características individuais da mulher, e não apenas a presença ou o estágio da endometriose.
Além disso, a idade tem papel fundamental no planejamento reprodutivo. Por isso, em uma mulher com endometriose que deseja engravidar, especialmente após os 35 anos, adiar uma decisão importante sem avaliar o potencial reprodutivo pode não ser a melhor estratégia.
Cirurgia antes da FIV é sempre necessária?
Também não.
Durante muito tempo, existiu a ideia de que seria necessário retirar todas as lesões de endometriose antes de realizar uma FIV. Hoje, a decisão é mais cuidadosa.
A cirurgia pode ser indicada em determinadas circunstâncias, principalmente quando há sintomas importantes, alterações anatômicas relevantes, suspeita de malignidade ou situações que dificultem o tratamento de reprodução assistida. Porém, operar apenas com o objetivo de melhorar o resultado da FIV não é uma indicação universal.
Isso é especialmente importante quando a doença envolve os ovários, já que procedimentos repetidos podem comprometer a reserva ovariana.
Quando procurar um especialista em reprodução humana?
Para a mulher com endometriose e desejo de engravidar, o planejamento deve começar antes mesmo de definir se será necessário fazer uma FIV.
Uma avaliação pode incluir a análise da reserva ovariana, avaliação das trompas, investigação do fator masculino, exames de imagem e compreensão detalhada do histórico da doença e dos tratamentos anteriores.
No ABC Paulista e na Grande São Paulo, o Dr. Fernando Boldrin, ginecologista e obstetra com atuação em reprodução humana assistida, acompanha mulheres que precisam integrar o tratamento da endometriose ao planejamento reprodutivo, considerando as particularidades de cada caso.
Essa avaliação individualizada é especialmente importante porque duas mulheres com o mesmo diagnóstico de endometriose podem ter situações reprodutivas completamente diferentes.
Endometriose não significa abrir mão do sonho de engravidar
A endometriose pode, sim, estar associada à infertilidade. Mas o diagnóstico não permite prever sozinho a capacidade de uma mulher engravidar, nem determina que ela precisará necessariamente de FIV.
O caminho mais adequado depende da combinação entre idade, reserva ovariana, anatomia pélvica, características da endometriose, histórico reprodutivo e objetivos da paciente.
Mais do que tratar a doença de forma isolada, o planejamento deve considerar também aquilo que a mulher deseja para o futuro da sua fertilidade.
E, quando existe desejo de maternidade, essa conversa não precisa começar somente depois que a dificuldade para engravidar aparece. Pode começar antes, com informação e planejamento.
Referências
- European Society of Human Reproduction and Embryology (ESHRE). Guideline: Endometriosis. 2022.
- Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Diagnóstico e manejo da infertilidade associada à endometriose. FEMINA, 2026.
- FEBRASGO. Endometriose e FIV. Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia.