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Perda gestacional

Perda gestacional de repetição: quando investigar trombofilias e quais exames são importantes?

Por Dr. Fernando Boldrin · Ginecologia, Obstetrícia e Reprodução Humana

Uma perda gestacional é uma experiência difícil e, quando acontece de forma recorrente, surge naturalmente a necessidade de entender o que pode estar por trás daquele quadro.

Nessas situações, a investigação de possíveis alterações da coagulação pode ser uma etapa importante da avaliação, especialmente quando o histórico clínico levanta suspeita de síndrome antifosfolípide ou de outras condições associadas ao risco trombótico. A investigação, entretanto, precisa ser direcionada. Nem toda mulher que teve uma perda gestacional precisa realizar um painel completo de trombofilias.

Essa diferença é fundamental para que os exames realmente contribuam para o diagnóstico e para a definição da conduta.

Por que investigar a coagulação após perdas gestacionais?

As trombofilias são condições que aumentam a predisposição à formação de coágulos. Elas podem ser hereditárias ou adquiridas.

Na obstetrícia, a síndrome antifosfolípide (SAF) merece atenção especial. Trata-se de uma condição autoimune associada à presença persistente de determinados anticorpos e que pode estar relacionada a eventos trombóticos e a algumas complicações obstétricas.

Por isso, diante de um histórico compatível, investigar essa condição pode ajudar a explicar determinados eventos e, principalmente, orientar o planejamento de uma próxima gestação.

Quais exames são utilizados para investigar a síndrome antifosfolípide?

Quando existe indicação clínica para investigar a SAF, os principais exames são:

  • Anticoagulante lúpico
  • Anticorpos anticardiolipina IgG e IgM
  • Anticorpos anti-beta-2-glicoproteína I IgG e IgM

Um resultado positivo isolado não significa, por si só, que a paciente tenha síndrome antifosfolípide. A interpretação depende da associação entre os achados laboratoriais e o histórico clínico, além da confirmação da persistência dos anticorpos em nova avaliação, conforme os critérios diagnósticos.

Esse é um dos motivos pelos quais a avaliação médica é indispensável: um exame não deve ser interpretado separado da história da paciente.

E as trombofilias hereditárias?

Existem também alterações hereditárias que podem aumentar o risco de trombose, entre elas:

  • Fator V de Leiden
  • Mutação da protrombina
  • Deficiência de antitrombina
  • Deficiência de proteína C
  • Deficiência de proteína S

Esses exames não devem ser solicitados automaticamente para todas as mulheres que tiveram uma perda gestacional.

A investigação pode ser considerada em situações específicas, principalmente quando existe histórico pessoal ou familiar relevante de trombose ou outros elementos clínicos que justifiquem essa avaliação. A ESHRE, em sua diretriz sobre perda gestacional recorrente, diferencia a investigação dos anticorpos antifosfolípides da pesquisa de trombofilias hereditárias, que não é recomendada como rastreamento rotineiro.

Quando a investigação ganha ainda mais importância?

Alguns antecedentes podem justificar uma avaliação mais detalhada, como:

  • perdas gestacionais recorrentes
  • óbito fetal sem causa esclarecida em determinadas circunstâncias
  • parto prematuro relacionado a pré-eclâmpsia grave ou insuficiência placentária
  • histórico pessoal de trombose
  • histórico familiar importante de eventos tromboembólicos
  • diagnóstico prévio ou suspeita clínica de síndrome antifosfolípide

A FEBRASGO reconhece determinados antecedentes obstétricos como situações que justificam investigação para síndrome antifosfolípide, incluindo perdas gestacionais recorrentes e algumas complicações placentárias graves.

Perda gestacional não significa necessariamente trombofilia

Esse é outro ponto importante.

Existem diversas causas possíveis para uma perda gestacional, e a investigação não deve se concentrar exclusivamente na coagulação.

Alterações cromossômicas do embrião, alterações anatômicas uterinas, condições endócrinas e outras situações também podem estar envolvidas. Por isso, especialmente diante de perdas recorrentes, a avaliação precisa ser ampla e individualizada.

Encontrar uma alteração em um exame de coagulação também não significa automaticamente que ela seja a causa da perda.

O resultado precisa fazer sentido dentro de todo o contexto clínico.

O que muda quando uma trombofilia é identificada?

Quando uma condição como a síndrome antifosfolípide é corretamente diagnosticada, a informação pode ser relevante para o planejamento de uma nova gestação.

Dependendo do histórico da paciente, podem existir estratégias específicas de prevenção e acompanhamento. Na SAF obstétrica, por exemplo, a FEBRASGO descreve o uso de ácido acetilsalicílico em baixa dose e heparina em situações determinadas, considerando o tipo de manifestação clínica e a presença ou não de trombose prévia.

Isso não significa que toda paciente com uma alteração laboratorial precise receber anticoagulantes.

Diagnóstico e tratamento precisam caminhar juntos, e a conduta deve ser definida de acordo com o risco individual.

O planejamento começa antes da próxima gestação

Depois de uma perda gestacional, é compreensível que exista ansiedade diante da possibilidade de uma nova gravidez.

Quando há histórico de perdas recorrentes ou complicações obstétricas, entretanto, o planejamento pode começar antes mesmo de uma nova tentativa.

Revisar os exames anteriores, compreender o que aconteceu na gestação precedente, avaliar fatores de risco e definir quais investigações realmente são necessárias pode tornar o acompanhamento muito mais direcionado.

No ABC Paulista e na Grande São Paulo, o Dr. Fernando Boldrin, ginecologista e obstetra com atuação em pré-natal de alto risco e reprodução humana assistida, realiza a avaliação individualizada de pacientes com histórico obstétrico complexo, considerando tanto os antecedentes quanto os exames necessários para o planejamento de uma nova gestação.

Mais exames não significam necessariamente uma investigação melhor

Quando existe uma história de perda gestacional, é natural querer investigar tudo.

Mas medicina baseada em evidências não significa solicitar o maior número possível de exames. Significa fazer as perguntas certas e escolher os exames capazes de ajudar a respondê-las.

A investigação da síndrome antifosfolípide tem papel importante em determinados cenários de perda gestacional recorrente. Já a pesquisa de trombofilias hereditárias deve ser feita de maneira seletiva, quando houver indicação clínica.

Para a mulher que passou por uma perda gestacional, especialmente quando o episódio se repete, o mais importante não é apenas descobrir um resultado alterado.

É entender por que aquele exame foi solicitado, o que seu resultado significa e se ele realmente muda a conduta para a próxima gestação.

Referências

  1. FEBRASGO. Síndrome antifosfolípide obstétrica. FEMINA, 2021.
  2. FEBRASGO. Perda gestacional recorrente. Protocolos FEBRASGO.
  3. ESHRE. Guideline on the management of recurrent pregnancy loss. Atualização de 2023.
Dr. Fernando Boldrin · CRM 101444 | RQE 60876 | RQE 60875Conteúdo informativo. Não substitui a consulta médica.